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Bem me quer

Um diário aberto

Bem me quer

Um diário aberto

Ela tem voz

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Não volta acontecer. Prometo”. Deve ser a frase que mais sai da boca daquele monstro que jurou ama-la.
O problema é a bebida, porque ele até é bom marido”. Deve ser a frase que ela mais diz com a esperança que acabe.
“Entre marido e mulher não se mete a colher”. Deve ser a frase que a vizinha diz quando ouve os gritos.
O medo deixa de ser do escuro, o medo deixa de ser do pesadelo que se tem a dormir. O medo passa a estar presente quando ele está, o pesadelo passa a ser acordada, porque a dormir é quando os sonhos saltam.
 A vergonha não deveria de existir na vitima, mas sim naquele monstro que prometeu um dia ama-la, respeita-la e protege-la.
O amor não magoa, não tem a mão pesada.Isto não é amor. Amor não faz juras de morte e pedidos vazios de desculpa. 
O stress do trabalho, os problemas do dia a dia, a bebida ou a falta dela não é desculpa para que a mão pesada aperte o pescoço até que ela caia no chão, mas sim um ato de cobardia. A derrota do seu clube não é desculpa  para os nomes que ela ouve, para os momentos que ele a rebaixa perante os outros, só para mostrar que pode. Ele não pode. O ciúme não é desculpa para atira-la ao chão e só parar de bater quando ela não se mexe mais, é sim, um ato medíocre.
"Não vi e caí das escadas" é a desculpa que dá quando a base não tapa as marcas mais vincadas. 
"Bati na maçaneta da porta", é a desculpa quando perguntam como é que fez aquela marca. 
Estas e outras frases têm que deixar de ser ditas. A vitima tem voz, tem de ser ouvida. 
Ela sabe que o amor violento não existe, ela sabe que existem palavras que magoam tanto ou mais que o estalo que a deita ao chão. Ela sabe que ninguém acredita naquelas desculpas esfarrapadas que dá. 
Ela tem pessoas que pedem por tudo para ir embora, imploram que mude o rumo da sua vida, mas o medo de ir e ser apanhada fala muitas vezes mais alto. Ela sabe que no fundo não está sozinha, mas é assim que se sente no meio da multidão. 

Ela, que é mulher, que é mãe e acima de tudo é ser humano, merece respeito, merece viver com dignidade. Merece não ter pesadelos acordada, merece não ter a mão pesada em cima e aguentar calada.
Ela tem voz e tem de ser ouvida. Tem de ser ouvida por todos nós. Tem de ser ouvida por quem legisla, tem de ser ouvida por quem veste uma farda e fez um juramento um dia. O juramento de proteger quem precisa de ser protegido. Tem de ser ouvida por quem vai julgar aquele que um dia quase lhe tirou a vida.
As vitimas de violência têm que sentir que não estão sozinhas, têm que sentir que vão ser ouvidas, que vão ser protegidas e que a justiça existe. Têm que sentir que não são alvo de vergonha, mas sim grandes mulheres. Têm que sentir que a sua vida importa, que fazem parte de uma comunidade que as abraça e as protege. 

Temos de meter a colher entre marido e mulher. Caso contrário quantas mais vozes vão ser caladas?