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Bem me quer

Bem me quer

Qui | 08.02.18

Avó

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Hoje olhei para o céu e lembrei-me de ti. Lembrei-me da tua voz, da tua pele como era macia. Lembrei-me do teu sorriso, da tua pessoa.
 Relembrei o caminho para aquele hospital, os corredores até ao teu quarto. Relembrei a tua cicatriz, o teu olhar que tanta vida tinha e que de um momento para o outro deixou de ter. Relembrei-te da forma mais bonita e mais dolorosa.
Tantos momentos bons contigo eu passei com ansia de passar mais. Tantas vezes foram aquelas que me escondi atrás de ti por seres o porto de abrigo, por seres o colo mais querido de todos. Relembrei o “sarita”, os quatro beijinhos. Relembrei os aniversários, os natais, as festas da escola que fazias questão de estar presente.
Relembrei a última lágrima, a última preocupação. Relembrei aquele quarto onde foi a tua última morada, onde por mais  que eu falasse contigo tu não respondias, por mais que eu pedisse que te levantasses porque precisava de ti, tu não concedeste o meu pedido. Relembrei a nossa última caminhada, o nosso último olhar. Relembrei-te sentada no sofá a olhar para um vazio que talvez tivesse vida, mas só tu conseguias vê-lo.
 Relembrei o nosso ultimo aniversário e lembrei-me que vem mais um ai. Lembrei-me que vai ser mais um ano apenas com um bolo, apenas com um cantar de parabéns.

 Lembrei-me que a rainha não vai estar mais à cabeceira da mesa, não vai mandar mais a sua gargalhada no final da saúde e antes do champanhe. 
 Lembrei-me que vou estar sozinha, que vou estar sem ti ao meu lado nesse dia tão nosso. Lembrei-me que se o cantar de parabéns durar mais um segundo do que é suposto a lágrima torna-se impossivel de segurar.
Lembrei-me que a dor vai aumentar, que a saudade não vai deixar espaço para qualquer outro tipo de sentimento, que o meu coração vai estar tão apertadinho que vai gritar em silêncio por ti, para que voltes nem que seja por mais um minuto. Nem que seja só para cantarmos os parabéns e ouvir a tua gargalhada.
 Tenho inveja de tudo o que hoje te consegue ver, sentir ou até mesmo ouvir.

  Tento relembrar-me do teu cheiro e não consigo encontra-lo nas memórias e tenho medo de me estar a esquecer de ti. Tenho medo que o tempo esteja a levar a melhor e que faça de ti uma memória longinca. Tenho medo que não consiga lembrar-me de ti o suficiente para conseguir lembrar-te um dia junto dos meus filhos e netos.
 Tenho medo que esteja a chegar a altura que vais deixar-me para sempre, que não vais aparecer mais nos meus sonhos a dar-me abraços. Tenho medo que tu própria te esqueças de mim e que não esperes por mim.
 Tenho medo de ter saudades e ao mesmo tempo de não a ter. Tenho medo de te deixar de amar não por já não estares cá, mas sim, porque o tempo afastou tal sentimento.
 Tenho medo que chegue o dia e te deixe partir de mim.